sábado, 24 de dezembro de 2011

A Carta de Natal









Há uma colunista que leio há anos (mais de cinco), a Karla Precioso, numa publicação semanal.Ontem de madrugada li sua matéria sobre Papai Noel. Considerei sensível e bonita, mas para mim que já passei por um limiar na vida, que sinto como se tivesse "atravessado uma ponte", aquela citação ainda me pareceu faltar um "quê" de mais profundo. A coluna se referia à uma menina,Vírgina, de New York, que escreveu ao jornal The Sun, perguntando se Papai Noel existia, porque seus amigos já diziam que não. O jornalista alimentou a fantasia daquela menina, o que antes eu considerava belo e ainda nada tenho contra quem o faça. Ele de uma forma singela disse que as coisas mais bonitas são invisíveis, que não podemos ver:


"Em 1897, Virgínia O’Hanlon Douglas, de 8 anos, escreveu para o jornal inglês The Sun perguntando se Papai Noel existia, já que alguns amigos diziam que tudo não passava de fantasia. O jornal publicou a resposta: “Seus amiguinhos estão errados. Provavelmente foram afetados pela descrença de uma época em que as pessoas só acreditam naquilo que veem. Papai Noel existe! Isso é tão certo quanto a existência do amor e da generosidade. Ah, como seria triste o mundo sem Papai Noel!
Não haveria a poesia e a fantasia para fazer a nossa existência suportável. Você poderia até pedir ao seu pai para contratar homens para vigiar as chaminés e assim flagrar Papai Noel, mas, mesmo que você não o visse descendo por elas, o que isso provaria? Nada! Ninguém vê o Papai Noel, mas não há sinais de que ele não existe. O fato é: as coisas mais reais são aquelas que ninguém vê. Papai Noel sempre existirá, fazendo felizes os corações das pessoas."  (Karla Precioso, colunista da revista)

Tenho chorado dias e dias seguidos por essa data que costumava cultivar desde que minha filha nasceu. Alimentei na minha menina a fantasia do Papai Noel, e a vi tão alegre, que aos dois anos chegou a gritar no shopping, de alegria, não de medo, como outras crianças estavam fazendo. Lembrando de tudo isso, comecei a repensar aqui todos os simbolismos que à minha volta, e o que me revolta não são os pinheiros, não é o Papai Noel, nem as bolas douradas, mas a ausência da minha filha, tão presente em meio a tudo que ela gostava, que começava a curtir dias e dias antes... o jardim de nossa casa (antes de morarmos em apartamento) tão enfeitado, as lindas decorações que a encantavam, desde que ela tinha um aninho, passeando à noite...as crianças cantando no lindo coro de Curitiba...

Não, o que me incomoda não são as luzes, nem as cores. Por causa da ausência dela esses símbolos me doem muito a ponto de chorar sem parar, e não vejo mais significado em nada disso sem ela. Posso ajudar "os Natais" de outras crianças mais necessitadas, sim, mas não é como ter "o Natal" com minha filha ao lado, compartilharmos a ceia, presenteá-la, e o mais importante, celebrar o nascimento Daquele que é a razão de tudo isso.
Retornando, a introdução é para dizer que não sou contra Papai Noel nem a bonita ingenuidade provocada por ele nas crianças. Meu pai escondia o presente embaixo da minha cama, até que um dia a magia foi quebrada quando acordei e vi um "Papai Noel" saindo com cuidado do meu quarto de pijamas, não disse para ele na hora, e nem no dia seguinte, mas fui dando a entender depois que já sabia que o bom velhinho era coisa do imaginário. As crianças são mais espertas que se pensa, e muitas vezes "querem" acreditar em Papai Noel, e já lá no fundo percebem que ele está na imaginação.
Ao ler o texto da menina americana, e a resposta da jornalista, em que ele falava das fantasias e do invisível, eu pensei imediatamente nas crianças vítimas do terremeto no Haiti. Já tão tristes e tão marcadas pela vida. pensei no contraste daquela criança de mais de cem anos atrás que é como muitas crianças de agora e no empenho do jornalista em consolá-la para acreditar que Papai Noel existia ( a colunista não escreveu a carta inteira, fui procurar na internet). Falava tão bonito do que não vemos, e ao mesmo tempo associava ao...Papai Noel.
                   
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Situação das crianças no Haiti é “a mais grave crise alguma vez vista”

O Haiti constitui "a mais grave crise de proteção das crianças alguma vez vista", devido ao grande número de órfãos e crianças separadas dos familiares, após o sismo de 12 de Janeiro, segundo a Unicef.
"No que concerne ao número de crianças não acompanhadas, a situação apresenta-se hoje como a mais grave crise de protecção de crianças alguma vez vista", disse a directora-geral adjunta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Hilde Johnson, durante uma conferência de imprensa em Genebra.
Esta responsável reportou que "cerca de 40 por cento dos haitianos têm menos de 14 anos" e quando ocorreu o sismo 300 mil crianças haitianas viviam em orfanatos, das quais 50 mil perderam os pais.  
"Com o sismo, o número de crianças não acompanhadas ou separadas dos familiares aumentou de forma significativa", assegurou, sem fornecer números sobre a situação atual.   


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Após ler a carta do jornalista americano para a garotinha, me veio a lembrança de uma reportagem completa que li sobre a situação das crianças no Haiti, onde nossa querida Zilda Arns (uma mãe de dois filhos que já a aguardavam no céu), se foi, estando lá em mais uma missão de paz.
Crianças abandonadas pela vida, vitimadas pela tragédia, carentes, atravessadas pela dor. Com certeza elas sabem do Papai Noel. Ouvem falar dele. Onde está? 
Fiz toda a introdução para explicar-lhes que não sou contra a fantasia de acreditar no Papai Noel. Mas não sou a favor da ilusão que machuca, e sim do alívio para aquelas crianças que se sentem abandonadas pela vida, como muitas de nós, mães que filhos se tornaram Anjos, nos sentimos.

Aqui está o meu texto, com a carta que foi respondida  por uma jornalista à uma criança que mora no Haiti:
  1. "Deisian, menininha de 8 anos sobrevivente do terremoto do Haiti, moradora de um abrigo junto a mais trinta crianças, ficou órfã de pais e não sabe o que houve (e talvez jamais saberá) com seus outros irmãos. Ficou severamente ferida em uma das pernas, o que a faz arrastar-se para andar. Deisian não reclama. Quieta, parece aceitar sua dor com uma triste apatia. Não há para quem reclamar. Por que chorar? Ninguém vai abraçá-la. Porém, como toda criança, conhece a história de Papai Noel e sabe dos presentes que dizem que Ele distribui. Perguntou à voluntária se ele existia, e ela lhe deu a idéia de escrever para um jornal, que ela se encarregaria de enviar. A carta foi parar nas mãos de uma das jornalistas, por coincidência uma mãe que levava uma grande dor no coração, e que sentiu um apelo muito forte dentro de sua alma para responder aquela menina. Moravam tão longe, mas tinha dores tão profundas e semelhantes.
    “Eu ouvi falar do Papai Noel. Mas eu não tenho mais nem meu pai, nem minha mãe. Eles se foram naquele dia e eu fiquei sozinha. Se o Papai Noel existisse, não teria tirado tudo de mim. Agora eu estou aqui, junto com meus outros amiguinhos. Não espero nada da vida. Moro num lugar onde me dão de comer e eu durmo. Estou com saudade do meu pai e da minha mãe. Aqui a moça boazinha que veio ajudar a cuidar da gente disse que eles foram morar com Deus. Eu queria pedir para o Papai Noel meus pais de volta no Natal. Papai Noel existe?”
    Tomada de emoção e sentindo as lágrimas lhe escorrerem sem parar dos olhos para a face, pegou imediatamente caneta e papel e respondeu a menininha, a quem queria pegar no colo e poder abraçar bem forte, para juntas, dividirem o que levavam no coração. Respirou profundamente e pôs-se a escrever:

    "Não, Desian, não existe Papai Noel. E não fique triste por isso em nenhum momento, meu amor.
    Mas Deus existe!
    Sabe por que lhe escrevo isso?
    Porque Papai Noel foi criado por homens, que um dia sentaram em frente a uma escrivaninha e começaram a inventar histórias de trenó e renas. Você já deve ter visto esse desenho, não é? Pois é, trenós são para neve (neva, fica tudo branco, quando está muito frio em alguns lugares desse mundo) , e não voam. Renas também não foram feitas para voar.
    Pássaros foram feitos para voar. Observe a natureza... Deus não gosta menos de você do que da menina que ganha a boneca no Natal, nos lugares distantes.
    Deus não fez seus pais voltarem para o céu só para você sofrer. Foi um acidente.
    Ele vê cada lágrima sua e a guarda. Ele te consola e sabe da sua dor. Ele te abraça quando você chora, mas você não sabe,  Ele ri quando você está brincando com seus amiguinhos e mesmo que por um instante consiga ser o que você é: só uma criança.
    Papai Noel usa roupas de frio porque onde esses homens o desenharam, fazia frio. Ele é da cabeça dos homens. Quando Deus mandou seu Filho Jesus para onde moramos, Ele usava uma roupa bem simples, parecida com a sua. Ele não precisava de enfeites, de rir diferente, capuz, de sino para chamar a atenção, de nada.
    Ele precisava apenas que as pessoas o ouvissem. Porque "ouvir" é diferente de "escutar." "Ouvir" é quando você para e seu coração sente. As palavras dele é que eram importantes, e não objetos que logo as pessoas iam enjoar e ser trocados.
    Jesus não é fantasia nem ilusão. Não podemos ver Jesus, mas não duvidamos que Ele existe. Isso é tão bom!


    Quanto à Papai Noel? Eu não quero dúvidas, nem fantasias! Ele é apenas um personagem para “divertir” as pessoas por um tempo, principalmente neste mês, mas também faz muitos outros como você, chorarem. Isso porque ele simplesmente, é uma versão enfeitada de um senhor bonzinho chamado Nicolau, esse sim que fazia o que podia, seguindo o que Jesus ensinou, e ajudando aos pobres. Depois ninguém vai rezar para Papai Noel pedindo ajuda, ou proteção. É para Aquele que é o aniversariante nesse dia, e que deve ser o mais lembrado.
    Papai Noel não vai trazer seus pais de volta, minha querida. Mas Deus está com eles e eles podem amar você de onde eles estão. Deus não dá objetos a ninguém porque não duram. Ele dá AMOR.
    E sabem quem nasceu para nos trazer ETERNA alegria nessa data? O menino Jesus, Ele sim, o aniversariante desse dia. Por isso te disse para não ficar triste, porque existe um motivo para você ficar muito mais feliz, Ele quando cresceu, falou:
    ‘Vinde a mim as criancinhas.’


    Ele, "minha filha", assim Ele lhe chama, sempre será teu amigo, e não está contigo somente um dia, mas todos por toda tua vida.
    Obrigada, Deisian. Sim, eu é que te agradeço."



Link externo: (coluna da Karla Precioso- link da página: http://migre.me/7hpWH )








4 comentários:

CECYLIA - BLOG PERDI MEU BEBE disse...

Olá Patrícia, eu acompanho há algum tempo o seu blog, me deparei com o rosto de sua filha que por sinal era muito lindo, uma boneca, não pude deixar de me colocar em seu lugar, pois também tenho uma menina que hoje está com 12 anos, tenho um blog só dela também – (WWW.deboraminhafilhaminhavida.blogspot.com) . Eu perdi o meu segundo filho aos 7 meses e meio de gestação e sei bem o que é a dor de perder um filho, mas perder um filho criado com certeza não existe palavras para descrever a dor que se sente. Tudo é muito difícil de entender, um porque sempre fica entalado em nossas gargantas e só Deus sabe a tristeza que sentimos por dentro pela ausência de nossos anjos. Minha filha sempre gostou muito do Papai Noel, adorava entrar na fila do bom velhinho só para ganhar balas, mas agora ela não liga mais e diz que é coisa de criança, eles crescem e tomam os seus rumos, sem que a gente possa contê-los. Diante do que aconteceu com a Carol e com o Gabriel da Ivonete(diário da mãe de um anjo), às vezes me assusto, chego a pensar como é possível Deus levar para perto Dele, nossos filhos tão amados, tão queridos, como pode Deus deixar uma mãe chorando no dia de Natal pela ausência de seus anjos. Mas por outro lado vejo que Deus é sábio em suas decisões e se Ele levou nossos anjos é porque era necessário, acredito que a missão deles aqui na terra já tinha se cumprido e a nossa ainda não terminou, por isto Deus nos deixou aqui.
Depois que perdi o meu bebe criei um blog, WWW.perdimeubebe.blogspot.com, no qual tenho os meus cantinhos favoritos e você faz parte dele, é um lurgarzinho onde nós mães de anjos podemos compartilhar a nossa dor, através de nossas histórias confortamos umas as outras e seguimos em frente.
Tenho certeza que sua filhinha está te enviando fluídos de amor, de ternura, para abrandar a dor que você está sentindo em seu coração e se ela pudesse com certeza estaria juntinho de você para comemorar mais um dia de Natal.
Que Deus possa te consolar, assim como Ele tem me consolado a cada dia e que neste Natal
a paz de Jesus Cristo preencha o vazio que ficou em sua vida.
Cecylia

Patricia disse...

Querida Cecília,
Sinto muito mesmo pela sua dor. Perder um bebê (ou devolvê-lo para seu Lar, com Deus), ainda na gestação realmente deve ser também muito difícil. Tive quase duas ameaças de perda na gestação de Carol e foram dois momentos muito terríveis pelos quais passei! Da segunda vez, ao quinto mês, o risco foi maior pois foi um deslocamento de placenta, o que me levou a fazer repouso por um tempo. Eu sempre tive tanto medo de perder minha filha, mas jamais pensaria que isso aconteceria a essa altura da minha vida, com ela quase fazendo quinze anos, cheia de planos, viagem, presentes encomendados...sei que isso é material, mas também somos terrenos. Ela iria ganhar seu primeiro cachorrinho e não sabia ainda, eu aguardava o dia 22 e não tive tempo de falar.
Na verdade minha amiga, quando se trata de FILHOS, dores são dores e muito profundas, e respeito tanto a sua quanto respeita a minha. Porque seguimos a ordem inversa da vida. Sei o quanto depositou de expectativas no seu menino, que deve até tê-lo imaginado um homem casado e até netos! Sim, nossa cabeça de mãe vai longe!! Mesmo ainda gestando! Porque a partir do momento que gestamos e até acalentamos a idéia de sermos mães, essas alminhas já estão conectadas conosco e essa conexão só pode ser para sempre. Compreendo sua dor, tem uma postagem aqui:"Não falem para uma mãe que perdeu o bebê no ventre ou perdeu seu seu filho", as pessoas minorizam essa dor, o que você disse, que ele não estava criado, estava criado sim, no seu coração, na sua alma e nas suas entranhas, nas suas expectativas de mãe. Dores de filhos são comparáveis sim minha amiga, porque são as maiores que existem. Devem ter te dito isso:"ah, mas ele ainda não estava criado", qual o conceito deles de criado?
Então quero afirmar que respeito sua dor, e não se deixe levar pelos que as subestimam pois eles não estão dentro de você para saber o que sente. Tenho fé que vai reencontrar seu filho no paraíso espiritual, que ele como um Anjo que com certeza é já olha e zela pela irmã da forma que pode, que te conhece, te abraça, pois é um espírito completo como qualquer um de nós, a partir do momento em que Deus decidiu que você seria mãe dele. Estou falando em termos de eternidade, porque aqui sabemos sim que tudo é passageiro e se vai com "as areias do tempo", como costumam dizer, o que não vai são nossos espíritos que são eternos.
Seu filho interpreto como um espírito já muito, muito avançado que precisava apenas de um pequeno período aqui, mesmo no ventre. E que como sempre diz uma amiga querida do meu grupo de mães, Marfisa, estava tudo combinado antes, nós sabíamos pelo que íamos passar, e eles têm tanta luz que vieram para nos ajudar na nossa evolução. Não que tenhamos sido isso ou aquilo em vidas passadas, mas porque os espíritos precisam evoluir, e a nossa dor é intensa, mas ao mesmo tempo nos leva a uma sublimação tão grande, porque nos aproxima, como diz Padre Fábio, da dor de Maria. Ela suportou tantas dores, assim como nós estamos suportando, e a tenho como exemplo, tanto que Zelinda nos nossos encontros sempre lhe pede forças, ela é o exemplo para as mães, porque ela sabe o que é essa dor, mas foi agraciada com a glória eterna ao lado do Filho.
Que você e sua filhinha tenham muitos momentos bons juntos, e que Deus lhes abençoe muito, ela é linda, obrigada pelas palavras que disse quanto à minha filha.
Você também já faz parte de minha vida.
Volte e comente sempre que tiver vontade.
Fique com Deus, e a paz do nascimento de Cristo para você e os seus.
Patricia.

Ilca Santos disse...

Olá amiga,
Só Deus sabe o quanto sofremos pela ausência de nossos filhos, nossa dor é imensa, é difícil suportar tanta saudade!
Dias abençoados para 2012, que a paz esteja sempre presente em sua vida!
Obrigada por sua presença e carinho.
Beijos.

Patricia disse...

Ilca, te desejo o mesmo minha amiga. Que Deus nos dê força a cada dia, a cada hora, minuto, porque nossas emoções são inexplicáveis e aquela angústia que vem e assola, não tem instante para chegar e nos dilacerar.
Obrigada também.
Beijos.